21 de novembro de 2017

do milagre

«NATHAN - - [...] A minha Recha
não aceita que seja milagre ter sido salva
por um ser humano, o que já de si é um milagre
e nada pequeno! [...]»


Gottold Ephraim Lessing, Nathan o Sábio, trad. Yvette Centeno, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 2016, p. 45.

17 de novembro de 2017

«O crânio, e depois o temperamento:

as duas partes mais duras do corpo.» J. M. Coetzee, Desgraça [1999], trad. José Remelhe, Lisboa, Biblioteca Sábado, 2008, p. 6.

13 de novembro de 2017

da coragem

«A coragem na guerra e a coragem do pensamento são duas coragens diferentes. E eu julgava que eram a mesma.» Svetlana Alexievich, A Guerra não Tem Rosto de Mulher (1985), trad. Galina Mitrakhovich, Lisboa, Elsinore, 2016, p. 29.

7 de novembro de 2017

"NATHAN O SÁBIO" E OUTROS LIVROS

As cruzadas vistas pelos árabes, de Amin Maalouf, é um livro que surge naturalmente na leitura do poema dramático Nathan o sábio, de Gotthold Lessing. Como não estive presente na sessão, não sei se a obra do escritor libanês foi referida pelos colegas do Clube de Leitura ou pelos visitantes do teatro de Almada.
A peça de Lessing, escrita, como sabe quem leu o prefácio de Manuela Nunes, para arrumar de forma exemplar a controvérsia teológica e filosófica com o ortodoxo luterano Johann Melchior Goeze, afasta-se um pouco da verdade histórica e, na verdade, nem tinha de a respeitar por inteiro. O aspecto que mais me intrigou, foi a presença em Jerusalém do patriarca romano. À luz de Maalouf e dos cronistas árabes citados, o patriarca abandonou a cidade depois de ela ter sido tomada por Saladino em 1187. O sultão de origem curda (Saladino nasceu em Tikrit, actual Iraque) foi, de resto, magnânimo, deixando-o sair com todo o ouro da igreja e aliviando consideravelmente o valor dos resgates exigidos para a partida dos cristãos. Destes, só os ortodoxos gregos e os jacobitas permaneceram na cidade santa das três religiões monoteístas.
Já as referências ao exaurido tesouro de Saladino são concordantes com a palavra dos cronistas. As promíscuas alianças existentes naquele século XII entre o pessoal político-militar dos diversos credos, sobretudo  cristãos e muçulmanos, tornam verosímil o novelo de parentescos desfiado nas últimas cenas.  
Sem tirar mais conclusões, penso que Nathan o sábio deverá ter originado uma boa discussão entre os leitores. É um livro como gosto, dos que nos obrigam a procurar outros livros. Foi por ele que voltei a folhear o Decameron de Boccaccio, em cuja obra se inscreve  a parábola dos três anéis, usada por Lessing como peça fulcral do seu poema dramático e contada, na obra do escritor toscano, pela personagem Filomena. Ainda sobre Boccaccio: são notáveis o prefácio do autor sobre a peste que grassou em Florença de Março a Julho de 1348 e a sua judiciosa conclusão a respeito das «cem novelas que em dez dias contaram sete donzelas e três donzéis.»

2 de novembro de 2017

o Sonho

-- Mas afinal que sonho é esse em que falas?
-- É para lá da vida, é a vida ideal. É talvez o céu. Em arte, é o livro que se entrevê e que gagueja, nunca atingindo o livro que imaginamos. E, em música, a aspereza em lugar dos sons e das vozes misteriosas que ouvimos em certas horas e que não podemos reproduzir.» Raul Brandão, A Morte do Palhaço e o Mistério da Árvore [1926], Lisboa, Editorial Verbo, 1972, p. 8.

30 de outubro de 2017

uma epígrafe de Ovídio

«A inveja habita no fundo de um vale onde jamais se vê o sol». Em Inveja -- Mal Secreto, de Zuenir Ventura (1998).


25 de outubro de 2017

névoa sobre a vila

«Caía uma chuva miudinha. Caía sobre a  neblina que se agarrava ao chão, babujando a terra, como fumaça de fogueira que uma atmosfera pesada não deixasse subir. A praça dir-se-ia coberta de algodão movediço e das mulheres que a atravessavam ora se via apenas a cabeça, ora somente um vago negrume agitando-se no meio da brancura ululante.» Ferreira de Castro, A Experiência [1954], 11.ª ed. [1.ª autónoma], Lisboa, Cavalo de Ferro, 2014, p. 43.



19 de outubro de 2017

"verbo áspero"

«[...] a mãe passou a carpir em sua própria língua, puxando um lamento milenar que corre ainda hoje a costa pobre do Mediterrâneo: tinha cal, tinha sal, tinha naquele verbo áspero a dor arenosa do deserto.» Raduan Nassar, Lavoura Arcaica [1975], Lisboa, Companhia das Letras, 2016, p. 170.

17 de outubro de 2017

a morte, essa galhofeira

«A morte costuma assim zombar com algumas das suas presas, como a fera com a vítima, quando a deixa fugir já ferida, e salteando-a outra e muitas vezes, renova o gozo de lhe rasgar as carnes, até que duma assentada a despedaça.» Camilo Castelo Branco, O Judeu [1866], Silveira, E-Primatur, 2016, p. 127.

13 de outubro de 2017

o início da DESGRAÇA

«Para um homem da sua idade, cinquenta e dois anos, tem resolvido bastante bem, segundo ele, o problema do sexo.» J. M. Coetzee, Desgraça [1999], trad. José Remelhe, Lisboa, Biblioteca Sábado, 2008, p. 5.



11 de outubro de 2017

"Percebi que as mulheres têm maior dificuldade em matar."


«A sensação insuportável de que não se quer morrer está sempre no centro. Ter de matar é ainda mais insuportável porque a mulher dá vida. Doa-a. Transporta-a longamente dentro de si, cria-a, desfaz-se em cuidados. Percebi que as mulheres têm maior dificuldade em matar.» Svetlana Alexievich, A Guerra não Tem Nome de Mulher (1985), trad. Galina Mitrakhovich, Lx., Elsinore, 2016, p. 24.

2 de outubro de 2017

"e todos de mãos dadas a olhamos com sofreguidão e candura."

«Por melhores e mais conscientes amizades que mais tarde se adquiram, nenhuma chega à dos vinte anos, quando o homem não tem interesses a defender e os sentimentos estão em pleno viço. Não há um de nós que saiba ainda o que vale a existência e todos de mãos dadas a olhamos com sofreguidão e candura.» Raul Brandão, A Morte do palhaço e o Mistério da Árvore [1926], Lisboa, Editorial Verbo, 1972, p. 7.



26 de setembro de 2017

"os vermes do tempo"


    «A voz de Januário toldou-se. A recordação cobria-se novamente de realidade. Os vermes do tempo devolviam aos ossos a carne que lhe haviam comido, o corpo refazia-se, aquecia, voltava a ser sensível.»
Ferreira de Castro, A Experiência [1954], 11.ª ed., Lisboa, Cavalo de Ferro, 2014, p. 31.

22 de setembro de 2017

"Fica mais feio o feio que consente o belo"

«--Não se pode esperar de um prisioneiro que sirva de boa vontade na casa do carcereiro; da mesma forma, pai, de quem amputamos os membros, seria absurdo exigir um abraço de afeto; maior despropósito que isso só mesmo a vileza do aleijão que, na falta das mãos, recorre aos pés para aplaudir o seu algoz; age quem sabe com a paciência proverbial do boi: além do peso da canga, pede que lhe apertem o pescoço entre os canzis. Fica mais feio o feio que consente o belo...»


Raduan Nassar, Lavoura Arcaica [1975], Lisboa, Companhia das Letras, 2016, p. 143. 

21 de setembro de 2017

coisas memoriais

fonte
«Ao mesmo tempo, D. João V lançava a primeira pedra daquela vasta mole de granito e mármore que aí está chamada mafra, cousa de triste e pavoroso aspecto, monumento que a si se levantou um braço real, como se a qualidade do braço o ressalvasse, posteridade além, da nota de se ter imergido no tesouro da pátria, tirando e espalhando às rebatinhas mãos-cheias de ouro que deviam cair em estradas, em colónias, em benefícios da navegação, em benefícios da agricultura, em recultivação das terras de D. Dinis, cujos arados D. Manuel e João III converteram em espadas e mandaram ensopar no sangue das nações de além-mar.»

Camilo Castelo Branco, o Judeu [1866], Silveira, E-Primatur, 2016, p. 120.

12 de setembro de 2017

1944, DESFILE DE 60000 PRISIONEIROS DE GUERRA ALEMÃES NAS RUAS DE MOSCOVO - Este o filme referido pela nossa colega Maria José na última sessão


historiadora da alma

fonte
«Não escrevo sobre a guerra, mas sobre o ser humano na guerra. Não escrevo a história da guerra, mas a história dos sentimentos. Sou historiadora da alma. Por um lado, estudo um homem concreto que vive num tempo concreto, tendo participado em acontecimentos concretos, por outro, preciso de descobrir um homem eterno. A trepidação da eternidade. O que sempre existe no homem.»

Svtelana Alexievich, A Guerra não Tem Rosto de Mulher, trad. Galina Mitrakhovich, Lisboa, Elsinore, 2016, pp. 21-22.

7 de setembro de 2017

o início de A MORTE DO PALHAÇO E O MISTÉRIO DA ÁRVORE

«[K. Maurício] // A cada passo se formam por aí grupos literários.»

Raul Brandão, A Morte do palhaço e o Mistério da Árvore [1926], Lisboa, Editorial Verbo, 1972, p. 7



5 de setembro de 2017

A GUERRA NÃO TEM ROSTO DE MULHER - Notas de leitura

- querer devorar o livro, mas, ao contrário de outros que ficam no palato como um vinho bom quando o estilo é superior, ou se debicam continuamente como um petisco num fim de tarde de praia, sem querer nem saber como parar a leitura, querer e não querer que esta acabe, tal a pressão psicológica a que somos sujeitos;

- testemunho indirecto da saga da mulher soviética de armas (e outros artefactos) na mão, enfrentando o invasor germânico, uma miríade de histórias pessoais e contraditórias, tendo por comum pano de fundo a bestialidade da guerra e sofrimento generalizado. Por vezes, uma centelha de humanidade, o milagre da humanidade no meio do inferno que os homens engendram;

- A Guerra não Tem Rosto de Mulher (1985), de Svetlana Alexievich pertence àquela categoria de obras que nos retratam cruamente, como realmente podemos ser em situações-limite. No testemunho pode emparceirar com Se Isto É um Homem (1947), de Primo Levi, ou O Arquipélago Gulag (1973), de Alexander Soljenitsin; em ficção, podemos verificar uma clima opressivo correspondente em narrativas de inspiração autobiográfica, como A Oeste Nada de Novo (1929), de Erich Maria Remarque, ou A Selva (1930), de Ferreira de Castro, ou ainda a desesperança sórdida da Viagem ao Fim da Noite (1932), de Céline;

- forma superior de jornalismo, é já literatura, uma literatura para a História.

31 de agosto de 2017

UMA PÁGINA...

"Correu o rumor de que os alemães tinham trazido à vila os nossos prisioneiros e quem reconhecesse os seus poderia levá-los. As nossas mulheres levantaram-se, correram para lá! À noite, umas trouxeram os seus, e outras trouxeram estranhos, contaram coisas inacreditáveis: as pessoas apodreciam vivas, morriam de fome, comeram todas as folhas das árvores... Comiam erva... Cavavam raízes... No dia seguinte, corri para lá também, não encontrei nenhum familiar, pensei que podia salvar o filho de alguém. Reparei num moreninho. Chamava-se Schakó, como agora o meu netinho. Tinha uns dezoito anos... Dei a um alemão toucinho e ovos, jurei: «É o meu irmão.» Fiz sinais da cruz. Chegámos a casa, ele não era capaz de comer um ovo, tão fraco estava. Não passou um mês sequer de estar connosco, apareceu um canalha. Vivia como outros, era casado, com dois filhos... Foi ao comando alemão e denunciou-nos, que tínhamos trazido gente estranha. No dia seguinte, os alemães vieram de moto. Suplicámos, caímos de joelhos, mas eles enganaram-nos, disseram que iam levá-los para mais perto das suas casas. Dei ao Schakó o fato do meu avô... Pensava que ele iria viver...
Levaram-nos para fora da aldeia... E abateram-nos a tiros de pistola metralhadora... Todos. Todinhos... Eram jovens, bonitos!"

A GUERRA NÃO TEM ROSTO DE MULHER, pg. 324-325

(A escritora (ou a testemunha) chamou canalha ao delator. É pouco. Ando aqui à procura de palavra mais adequada... Talvez não haja. Os inventores da língua talvez não tivessem conhecido malvadez tamanha...)  

30 de agosto de 2017

uma epígrafe de Óssip Mandelstam,

a abrir os «Excertos do diário» de A Guerra não Tem Nome de Mulher (1985), de Svetlana Alexievich:

                                                        Milhões de mortos ao desbarato
                                                        Trilharam o seu caminho nas trevas...

fonte

2 de junho de 2017

atribulações de um autor

«Mais do que um livro sobre a inveja, este livro é sobre alguém tentando escrever um livro sobre a inveja.»


Zuenir Ventura, Inveja - Mal Secreto [1998], Lisboa, Planeta, 2009, p. 15.

31 de maio de 2017

V ENCONTROS FERREIRA DE CASTRO - OSSELA E BARALHAS, 26 E 27 DE MAIO

«De regresso à estrada, vê-se, logo adiante das Baralhas, um panorama surpreendente. É o vale de Cambra. Quase ignorado até há pouco, a sua beleza ganha, dia a dia, maior renome. (...) O espectáculo imponente pode-se contemplar da estr., onde existe um miradoiro próprio.» -- GUIA DE PORTUGAL, 3º volume, Beira e  Beira Litoral; Fundação Calouste Gulbenkian, 1993, pp. 609 e 610, texto de Ferreira de Castro. -- Sábado, 27 de Maio, os participantes no miradoiro das Baralhas.